As ondas em meu cabelo
Solto do teu medo de mar
Hábito de chão
Em que rolas de punhos fechados
Sobre os olhos tão cerrados
À luz
Calor algum atravessa
O corpo em fuga
Da vida que em volta
Ameaça desenrolar
Sobre ti
As ondas em meu cabelo
Solto do teu medo de mar
Hábito de chão
Em que rolas de punhos fechados
Sobre os olhos tão cerrados
À luz
Calor algum atravessa
O corpo em fuga
Da vida que em volta
Ameaça desenrolar
Sobre ti
um dia, num prado primaveril, desmaiou-me uma flor, só por lhe dizer de uma forma mais áspera para sair do caminho.
Burro que caminhas
mas não corres
nessa tua pele de burro
nesse teu pelo castanho e nítido
que contrasta contra este nevoeiro branco.
Tu que entendes o mundo pelos cascos
e que não é uma forma pior nem melhor
de o entender
do que a minha,
é simplesmente diferente
e é-me inacessível.
Tu com as tuas duas orelhas evidentes
que dançam à frente das minhas imóveis e encolhidas orelhas,
ouves tão melhor que eu
mas nunca ouvirás
o desdém
com que usamos o vocábulo que atribuímos para te designar.
E ouvindo
se entendesses
provavelmente nem te importarias
porque o orgulho deve ter pouca expressão
fora da espécie humana.
E é tão bacoco.
arrumo cada canto
enquanto
me desabam os recantos
busco acertar meu passo
ao passo
que me perco no compasso
descompassado
águas residuais passadas
movem-me moinhos
pedra dura
fúria mole
dura
fura
O título não faz parte do poema?
Não devia também ser uma pergunta?
A poesia tem de ser verdade?
A arte verdadeira não se chama jornalismo ou história?
Para quê continuar com isto?
Nem um poema há de ser,
que o defraude na arte tem de ser grande para valer a pena. Será à descarada. Ninguém gosta de ver um filme mediamente mau. Que seja ultrajante então. Que saiam do cinema nauseados. Que se façam manifestações, que haja mensagens de ódio nas redes sociais, ameaças ao autor. Mas nunca placidamente desapontante — esse é o nadir da vocação inútil da arte. Eu se não chegar a bom preferia quedar-me por repulsivo, com estrangeirismos absolutamente despropositados no texto, por exemplo. E com um abuso de auto-referência e recursividade, que de resto até é um defeito que também está bem patente na poesia decente. Que se note a implícita, e depois explícita, todavia ridícula, sugestão de que ser poesia se baliza pelo grafismo do texto. Que se seja condescendente com os leitores e se lhes explique as já parcas subtilezas. Sem coragem — nem isso — para um insulto ou crítica, que se ofereça uma insultuosa ajuda.
Não só uma obra contra si mesma. Uma obra contra quem a assiste.
Isto se não chegar a bom pelo menos que se fique no que já é.
É na raiz que está
a dor.
Cá fora é um regimento de suspeitos
circunstanciais,
gente com cadastros tingidos
por delitos menores
apanhados numa rede de garimpo
mal cosida
mas sedenta
de um culpado
sedenta
de encontrar o cascalho
no meio do ouro.
Quando pensam na vossa própria morte o que contemplam? Ficam a intuir como será a experiência pós-vida? Ou ficam a imaginar como reagiriam as pessoas mais próximas, as mediamente próximas, uma pessoa particular com quem pouco interagiram, quem seria a pessoa que descobria primeiro, como seriam as logísticas fúnebres e sobretudo emocionais dos vivos?
No fundo
na escura cova do nosso âmago
antes da insinceridade de todos os filtros e bandeiras de que somos partidários
e que interpomos sempre
que nos debruçamos conscientemente sobre isto
— no fundo —
todos diferentes temos igual convicção
que não há história
nem experiência
depois do fim.
Depois do fim não há nada.
Nada.
Nem mesmo vazio. Nem ausência. Nem nada.
Depois do fim não há.
A história escrever-se-á pelos vivos, o objetivo e o subjetivo pertencerão aos que respiram, quer a carne quer o éter são cognoscíveis pelo mesmo lado da barricada — os que não falam também não têm nada a dizer.
O nosso interesse historiográfico ou emocional pela nossa morte resume-se à experiência dos vivos, tal é a improbabilidade do resto ser relevante.
E um morto também não tem interesses.
Aprendia mais coisas
E achava-me então muito sábio.
Isso era evidência que não estava a aprender as coisas certas.
Querer do tempo,
mais.
Querer da dor,
ausência.
Querer do sonho,
substância.
Querer de mim,
outro.
Querer da neve,
branca.
Mas querer do branco,
quente.
Querer do outro,
outro.
Querer de tudo,
algo.
º
Querer de querer,
parar.
Eu sempre que tinha de estudar
escrevia poemas
porque temos de tirar alguma coisa cá de dentro
para caberem outras.
É bonita, não é, esta ideia? De que um poema é uma coisa que já existe cá dentro, que só a temos que encontrar e que a parir.
É bonita, não será nova, só bonita.
É suficiente.
merda de ideias
merda de translação, isto estava tão mais bonito
na minha cabeça.
Aqui está menos poético
mais obstipado
talvez a vida seja assim
menos poética que o faccioso flow dos nossos pensamentos
e emoções
nós é que nunca os olhamos bem.
E ainda nos importunamos
com não ser belo o suficiente
se calhar era melhor arte
era uma fotografia mais honesta
um fruto sincero
— para quê tirar os caixotes do lixo do enquadramento
se a verdade é que estão lá?
Apanhei uma onda
e a música estava mesmo boa
era indie rock
cantado pelo gilberto gil
numa língua morta, antiga
que se enrolava mesmo bem com a espuma das ondas e
abracadabra
apercebi-me
que magia
estar ali no meio de uma imagem tao bonita
pintada pela boca do artista
e era engraçado
que a luz do sol brilhava debaixo da água
e emergia essa luz
e cá fora já era de noite e nem tinha notado
porque era daquelas noites quentes
que se não se estiver atento só se dá conta das horas já ao amanhecer
mergulhei então sem perder tempo
para ver aquela luz
e quando cheguei ao fundo do copo
tinha uma enorme pedra de gelo
e em cima dela um esquimó
a dizer que com o aquecimento global agora vivia-se melhor era nos congeladores das famílias europeias
e eu disse
que os frigoríficos americanos eram maiores.