domingo, 10 de julho de 2022

duro

arrumo cada canto

enquanto

me desabam os recantos

 

busco acertar meu passo

ao passo

que me perco no compasso

 

descompassado

 

águas residuais passadas

movem-me moinhos

pedra dura

 

fúria mole

dura

fura

sexta-feira, 18 de março de 2022

Poema só com perguntas


O título não faz parte do poema?

Não devia também ser uma pergunta?

A poesia tem de ser verdade?

A arte verdadeira não se chama jornalismo ou história?

Para quê continuar com isto?

Nem um poema há de ser,

que o defraude na arte tem de ser grande para valer a pena. Será à descarada. Ninguém gosta de ver um filme mediamente mau. Que seja ultrajante então. Que saiam do cinema nauseados. Que se façam manifestações, que haja mensagens de ódio nas redes sociais, ameaças ao autor.  Mas nunca placidamente desapontante — esse é o nadir da vocação inútil da arte. Eu se não chegar a bom preferia quedar-me por repulsivo, com estrangeirismos absolutamente despropositados no texto, por exemplo. E com um abuso de auto-referência e recursividade, que de resto até é um defeito que também está bem patente na poesia decente. Que se note a implícita, e depois explícita, todavia ridícula, sugestão de que ser poesia se baliza pelo grafismo do texto. Que se seja condescendente com os leitores e se lhes explique as já parcas subtilezas. Sem coragem — nem isso — para um insulto ou crítica, que se ofereça uma insultuosa ajuda.

Não só uma obra contra si mesma. Uma obra contra quem a assiste.


Isto se não chegar a bom pelo menos que se fique no que já é. 

sábado, 5 de fevereiro de 2022

Subsolo

É na raiz que está

a dor.

Cá fora é um regimento de suspeitos

circunstanciais,

gente com cadastros tingidos

por delitos menores

apanhados numa rede de garimpo

mal cosida

mas sedenta

de um culpado

sedenta

de encontrar o cascalho

no meio do ouro.


terça-feira, 14 de dezembro de 2021

Todos Sabemos a Mesma Resposta.

Quando pensam na vossa própria morte o que contemplam? Ficam a intuir como será a experiência pós-vida? Ou ficam a imaginar como reagiriam as pessoas mais próximas, as mediamente próximas, uma pessoa particular com quem pouco interagiram, quem seria a pessoa que descobria primeiro, como seriam as logísticas fúnebres e sobretudo emocionais dos vivos?


No fundo

na escura cova do nosso âmago

antes da insinceridade de todos os filtros e bandeiras de que somos partidários

e que interpomos sempre

que nos debruçamos conscientemente sobre isto 

— no fundo —

todos diferentes temos igual convicção

que não há história

nem experiência

depois do fim.



Depois do fim não há nada.

Nada.

Nem mesmo vazio. Nem ausência. Nem nada.

Depois do fim não há.




A história escrever-se-á pelos vivos, o objetivo e o subjetivo pertencerão aos que respiram, quer a carne quer o éter são cognoscíveis pelo mesmo lado da barricada — os que não falam também não têm nada a dizer.

O nosso interesse historiográfico ou emocional pela nossa morte resume-se à experiência dos vivos, tal é a improbabilidade do resto ser relevante.

E um morto também não tem interesses.


quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

Avançar Lições

Aprendia mais coisas 

E achava-me então muito sábio.

Isso era evidência que não estava a aprender as coisas certas.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

A batuta do maestro


Querer do tempo,

mais.

Querer da dor,

ausência.

Querer do sonho,

substância.

Querer de mim,

outro.

Querer da neve,

branca.

Mas querer do branco,

quente.

Querer do outro,

outro.

Querer de tudo,

algo.


             º


Querer de querer,

parar.

domingo, 19 de setembro de 2021

Nestes tempos distantes

Eu sempre que tinha de estudar

escrevia poemas

porque temos de tirar alguma coisa cá de dentro

para caberem outras.


É bonita, não é, esta ideia? De que um poema é uma coisa que já existe cá dentro, que só a temos que encontrar e que a parir.


É bonita, não será nova, só bonita.


É suficiente.


Excerto retirado do meio de um poema que não pode ser publicado por não atingir o critério mínimo de qualidade


merda de ideias

merda de translação, isto estava tão mais bonito

na minha cabeça.

Aqui está menos poético

mais obstipado

talvez a vida seja assim

menos poética que o faccioso flow dos nossos pensamentos

e emoções

nós é que nunca os olhamos bem.

E ainda nos importunamos

com não ser belo o suficiente

se calhar era melhor arte

era uma fotografia mais honesta

um fruto sincero

— para quê tirar os caixotes do lixo do enquadramento

se a verdade é que estão lá?

quinta-feira, 26 de agosto de 2021

Verão

Apanhei uma onda 

e a música estava mesmo boa

era indie rock

cantado pelo gilberto gil

numa língua morta, antiga

que se enrolava mesmo bem com a espuma das ondas e

abracadabra

apercebi-me

que magia

estar ali no meio de uma imagem tao bonita

pintada pela boca do artista

e era engraçado

que a luz do sol brilhava debaixo da água

e emergia essa luz

e cá fora já era de noite e nem tinha notado

porque era daquelas noites quentes

que se não se estiver atento só se dá conta das horas já ao amanhecer

mergulhei então sem perder tempo

para ver aquela luz

e quando cheguei ao fundo do copo

tinha uma enorme pedra de gelo

e em cima dela um esquimó

a dizer que com o aquecimento global agora vivia-se melhor era nos congeladores das famílias europeias

e eu disse

que os frigoríficos americanos eram maiores.


terça-feira, 4 de maio de 2021

domingo, 18 de abril de 2021

Posse

A posse é uma troca.

Parece unívoca, mas não é, é uma troca.

Quando se possui algo ganha-se um direito mas perde-se um grau de liberdade.

Quando nos movemos num estado prévio, pueril e casto — que nunca chega realmente a existir — movemo-nos livres, equidistantes de tudo, porque não há referencial. A posse estabelece uma posição relativa, que deve ser mantida, no sentido de garantir esse mesmo direito transacionado.

Nós, seres desenhados na selva, projetados para a escassez, estamos intrinsecamente dispostos a abdicar da liberdade — um dos poucos bens abundantes na era pré-moderna — pelo direito de propriedade. Mas a posse paga uma renda alta. A posse exige manutenção e tem onerosos custos alocados à preservação do referencial. A posse é um saco pesado e grande e uma preocupação com ele ainda maior.

A posse e o desejo de exclusiva propriedade são intrínsecos e também por isso poderosos. São anti-pluralistas e são anti-democráticos, pelo menos na assembleia interna de cada um de nós. Ofuscam. Falam num tom demasiado alto. Não dão espaço à expressão de outros pensamentos no referencial cognitivo-emocional.


A posse é ubíqua.

A única cura é o eremitério.

segunda-feira, 12 de abril de 2021

Ténis para Surdos-Mudos

Embora não pareça, o Ténis é um desporto que vale sobretudo pela música.

Percebi isso, certa vez, quando ouvi um surdo-mudo dizer que o ténis não passava de duas pessoas a jogar raquetes.

quinta-feira, 25 de março de 2021

Motivo Poético

Escreve-se proporcionalmente pouca poesia sobre felicidade ou alegria.

Ainda bem.