terça-feira, 17 de novembro de 2020

Sobrávamos Lá Nós

Sobrávamos lá nós. Quantos? Talvez nem meio. Talvez nem meio fossemos. Todos os outros já tínhamos perecido pelo meio da jornada. Todas essas versões de alter-egos nossos já tínhamos morrido, algures, distraídos com qualquer miudeza, qualquer pedra brilhante ou inseto mais colorido que acabámos por seguir até escorregarmos num abismo ou perdermos o grupo.
O último bastião do movimento estava ali, agora, nesse momento derradeiro, entre a espada e a parede. E eu só conseguia andar em frente, tal era o meu medo da parede. Lisa como um conceito. Limitante. E tu seguravas a espada de forma tão frouxa, e ela enterrava-se mal no meu peito. As lágrimas eram já mais que o sangue. E claro que as lágrimas são um sangue muito mais sério, sobretudo menos espalhafatoso, e foram elas mesmo lavando o rasto vermelho escuro, velho, do sangue poluto. Eu avançava com os ombros adiantados fugindo inutilmente à parede junto da qual eles haviam de ser sepultados. A ponta da espada era torta e ferrugenta, o gume gasto. Surpreendia-me não te ser demasiado pesado um instrumento assim. Tremias das mãos e não sei se também te tremia a voz, porque não falaste, até ao fim.

domingo, 25 de outubro de 2020

sábado, 24 de outubro de 2020

O objectivo da vida

é preparamo-nos para a morte
é viver uns bons anos, com sorte
e naqueles já mais tardios
mais achacado aos bafios
ir-se desligando aos poucos 
sem custar muito aos outros
(sem nos custar muito aos outros!)
num processo que não se quer
com uma velocidade qualquer
mas antes bem tenteada
que pareça que vem lenta
mas sem chegar atrasada.
a gente bem pede e tenta:
mais devagar para não doer
mais rápido para não custar!
uma velocidade que seja
o quanto baste (!)
— para amortizar a dor —
deixar esmorecer o ardor,
que já sem grandes projetos
deixam-se melhor os netos.
de preferência já visitado
por uis e ais
(meus bons vizinhos)
de uma por outra dor nas costas 
que já façam chegar às portas
do pensamento a ideia
que ela pode nem chegar feia
(afinal se há quem vista bem de preto,
talvez também um esqueleto!)

É que lá na madeira estirado
com as juntas a pedir unto
o velho lombo castigado
não dá sinais do caruncho,
nem consta de nenhum auto
de queixas dos silenciados
que os ossos de tão esmifrados
dêem dores a algum defunto.

 *

Ah, definhar suavemente pela existência fora, como quem cai no sono.
Escutei a vida, plena:
— um fade out desde a infância.

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Grande Angular

A floresta via-nos debaixo
Os pés grandes e as cabeças pequenas
E temia que o nosso poder fosse desproporcional à nossa responsabilidade.

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

sábado, 3 de outubro de 2020

De mansinho

Acerca-te de mim, beleza — rezei.

E procedi com tal delicadeza

Como se estivesse a atrair um gato.

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Morde-me

Morde-me.

Come os meus velhos restos.

Alguém tem de acabar

esta refeição.

Alguém será o último

a servir-se.

Doo o meu término

sem reservas

e até com um negro orgulho

aos teus sanguíneos caninos.

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

Urge

Urge mungir da vida

A sua essência.

 

Antes que seque. 

Fora de Tempo

As minhas primeiras palavras foram ditas no útero.

Na altura pelos ultrassons da ecografia ouvia-se "penta, paenta", que não era uma referência à minha idade gestacional nem ao sistema decimal, porque ainda não tinham chegado à vida intra-uterina os progressos da revolução francesa, mas era apenas eu a tentar dizer "Placenta". 

Na minha primeira infância tive um acidente automóvel em que era eu o condutor. Fali a minha conta-poupança. Tirei um year off que foi inédito na primária. Juntei-me ao único partido que me aceitou mesmo não me revendo no anarco-capitalismo. Deixei de ter tempo para o desporto e engordei.

Aos treze anos tive pela primeira vez a visão esclarecida da minha existência como um todo, como quem olha de longe, de um miradouro alto. Percebi que estava exatamente a meio da minha vida. Tinha 13 anos de passado e 13 anos de futuro.

Na adolescência tive uma crise de meia idade e foi aí que comecei a tomar drogas para a potência sexual, e dessas para as outras foi um passo fácil demais. Acreditem que de tomar 3 comprimidos de Viagra por noite a picar uma veia com heroína mal se dá por ela. De modo que a dependência de estupefacientes até chegou em tempo apropriado, no início da fase adulta.

Escrevi as minhas memórias aos 23 anos, donde já constaram os meus 3 divórcios, o meu baixote topo de carreira e a educação de uma filha adotiva até à maioridade (na altura adotámos uma adolescente de 16 anos, a Cláudia, mas para nós, e para o namorado dela, será sempre a nossa "bebé"). O resto do conteúdo foi substancialmente inventado porque já tinha começado a manifestar os primeiros sinais de demência, e a memória falhava como as notas de 500, que entretanto deixaram de existir.

Antes do quarto de século deixei feito o meu testamento, que foi sobretudo um exercício de doação emocional, porque pouco mais havia a distribuir. Preparei-me para repousar e fiz as minhas pazes com Deus e com os homens.

Hoje, 50 anos volvidos, conto já 76 anos e estou relativamente pouco carcomido, para a idade. Pouco mais fiz na vida desde essa data, mas tenho vivido despreocupado, e isso é deleitoso.

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

La Beauté comme un chat

Acerca-te de mim beleza — rezei.

E procedi com a mesma softness

As if i was luring a cat.

domingo, 20 de setembro de 2020

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Acrasia

Consciente e racional
surgiu
naturalmente
a melhor opção para mim
 — a de maior benefício.

E sem nenhum impasse a condicionar-me
aqui estou eu
— noutra posição que não essa.

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Algo Para Agarrar

Capitão Insónias,
que sono que tenho!
Se fico sem dor
o que é que me sobra?

Não partas já, 
meu capitão,
ainda é cedo
e eu não quero uma noite bem dormida
e um dia assim-assim
amanhã. 

Não quero um dia neutro.
Escuro, negro, difícil
pelo menos,
mas que não passe por mim
como as imagens
pela vidraça da janela.

                *

Estação de serviço do tempo
e da história
(da minha),
eu sou o sítio
onde param para mijar.

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Ensaio número 2 - Auto-biografia de mentiras convenientes

Real homem vivo

    se tudo não for um equívoco.

Internacional

    objector da limitada filosofia dos limites de fronteira.

Não político antropomorfo

    mas animal político

    por natureza da espécie humana.

Não anglófono, estrangeiro, não francês

    por serem as línguas mais importantes num tempo em que não estudou.

Obtido por geração espontânea

    ou pela teoria vigente na altura em que isto se ler.

Id do seu Ego

    salvou-se a si mesmo num grande naufrágio

    ao dividir-se em dois.

(decididamente) Não decidido

    não.

Panteísta

    nos dias bons.

Pagão do ateísmo

    nos anos maus.

Romântico poliglota

    sem língua nativa.

Espiritual

    também geométrico

    [a dupla anti-hélice!].

Não colecionador

    por falta de espaço.

Anarquista

    incumpridor das regras do anarquismo.

Envergonhado pela não originalidade do último verso

    ainda assim permanece.

Não organizado.

Não viável

    como todos somos

    mas é erro de paralaxe.

Conhecido pelo seu olfacto

    e no entanto não ladra.

Dupla negação de si mesmo.

Assiste ao tumulto do dia

    numa passividade vegetal

E às vezes no silêncio da noite,

    muda a realidade,

    exercendo melodia e luz.