terça-feira, 17 de novembro de 2020
Sobrávamos Lá Nós
terça-feira, 27 de outubro de 2020
domingo, 25 de outubro de 2020
sábado, 24 de outubro de 2020
O objectivo da vida
é viver uns bons anos, com sorte
e naqueles já mais tardios
mais achacado aos bafios
ir-se desligando aos poucos
sem custar muito aos outros
(sem nos custar muito aos outros!)
o quanto baste (!)
por uis e ais
(meus bons vizinhos)
(afinal se há quem vista bem de preto,
talvez também um esqueleto!)
com as juntas a pedir unto
não dá sinais do caruncho,
nem consta de nenhum auto
de queixas dos silenciados
que os ossos de tão esmifrados
sexta-feira, 23 de outubro de 2020
Grande Angular
A floresta via-nos debaixoOs pés grandes e as cabeças pequenasE temia que o nosso poder fosse desproporcional à nossa responsabilidade.
quarta-feira, 21 de outubro de 2020
segunda-feira, 19 de outubro de 2020
sábado, 3 de outubro de 2020
De mansinho
Acerca-te de mim, beleza — rezei.
E procedi com tal delicadeza
Como se estivesse a atrair um gato.
sexta-feira, 2 de outubro de 2020
Morde-me
Morde-me.
Come os meus velhos restos.
Alguém tem de acabar
esta refeição.
Alguém será o último
a servir-se.
Doo o meu término
sem reservas
e até com um negro orgulho
aos teus sanguíneos caninos.
quarta-feira, 30 de setembro de 2020
Fora de Tempo
As minhas primeiras palavras foram ditas no útero.
Na altura pelos ultrassons da ecografia ouvia-se "penta, paenta", que não era uma referência à minha idade gestacional nem ao sistema decimal, porque ainda não tinham chegado à vida intra-uterina os progressos da revolução francesa, mas era apenas eu a tentar dizer "Placenta".
Na minha primeira infância tive um acidente automóvel em que era eu o condutor. Fali a minha conta-poupança. Tirei um year off que foi inédito na primária. Juntei-me ao único partido que me aceitou mesmo não me revendo no anarco-capitalismo. Deixei de ter tempo para o desporto e engordei.
Aos treze anos tive pela primeira vez a visão esclarecida da minha existência como um todo, como quem olha de longe, de um miradouro alto. Percebi que estava exatamente a meio da minha vida. Tinha 13 anos de passado e 13 anos de futuro.
Na adolescência tive uma crise de meia idade e foi aí que comecei a tomar drogas para a potência sexual, e dessas para as outras foi um passo fácil demais. Acreditem que de tomar 3 comprimidos de Viagra por noite a picar uma veia com heroína mal se dá por ela. De modo que a dependência de estupefacientes até chegou em tempo apropriado, no início da fase adulta.
Escrevi as minhas memórias aos 23 anos, donde já constaram os meus 3 divórcios, o meu baixote topo de carreira e a educação de uma filha adotiva até à maioridade (na altura adotámos uma adolescente de 16 anos, a Cláudia, mas para nós, e para o namorado dela, será sempre a nossa "bebé"). O resto do conteúdo foi substancialmente inventado porque já tinha começado a manifestar os primeiros sinais de demência, e a memória falhava como as notas de 500, que entretanto deixaram de existir.
Antes do quarto de século deixei feito o meu testamento, que foi sobretudo um exercício de doação emocional, porque pouco mais havia a distribuir. Preparei-me para repousar e fiz as minhas pazes com Deus e com os homens.
Hoje, 50 anos volvidos, conto já 76 anos e estou relativamente pouco carcomido, para a idade. Pouco mais fiz na vida desde essa data, mas tenho vivido despreocupado, e isso é deleitoso.
quarta-feira, 23 de setembro de 2020
La Beauté comme un chat
Acerca-te de mim beleza — rezei.
E procedi com a mesma softness
As if i was luring a cat.
domingo, 20 de setembro de 2020
segunda-feira, 7 de setembro de 2020
Acrasia
surgiu
naturalmente
a melhor opção para mim
— a de maior benefício.
E sem nenhum impasse a condicionar-me
aqui estou eu
— noutra posição que não essa.
quinta-feira, 3 de setembro de 2020
Algo Para Agarrar
Se fico sem dor
o que é que me sobra?
Não partas já,
meu capitão,
ainda é cedo
e eu não quero uma noite bem dormida
amanhã.
Não quero um dia neutro.
Escuro, negro, difícil
pelo menos,
mas que não passe por mim
como as imagens
pela vidraça da janela.
Estação de serviço do tempo
e da história
onde param para mijar.
quarta-feira, 26 de agosto de 2020
Ensaio número 2 - Auto-biografia de mentiras convenientes
Real homem vivo
se tudo não for um equívoco.
Internacional
objector da limitada filosofia dos limites de fronteira.
Não político antropomorfo
mas animal político
por natureza da espécie humana.
Não anglófono, estrangeiro, não francês
por serem as línguas mais importantes num tempo em que não estudou.
Obtido por geração espontânea
ou pela teoria vigente na altura em que isto se ler.
Id do seu Ego
salvou-se a si mesmo num grande naufrágio
ao dividir-se em dois.
(decididamente) Não decidido
não.
Panteísta
nos dias bons.
Pagão do ateísmo
nos anos maus.
Romântico poliglota
sem língua nativa.
Espiritual
também geométrico
[a dupla anti-hélice!].
Não colecionador
por falta de espaço.
Anarquista
incumpridor das regras do anarquismo.
Envergonhado pela não originalidade do último verso
ainda assim permanece.
Não organizado.
Não viável
como todos somos
mas é erro de paralaxe.
Conhecido pelo seu olfacto
e no entanto não ladra.
Dupla negação de si mesmo.
Assiste ao tumulto do dia
numa passividade vegetal
E às vezes no silêncio da noite,
muda a realidade,
exercendo melodia e luz.