quinta-feira, 15 de março de 2018

Meia que ensopada


Chuva onde anda
Pesada no vento,
Fria, mas quente
Serpente aguada,
Via mais quente
Novo quem sente.
Ergueu de repente,
Na talha lavada,
Rajada entoada
E clarão no nada
Da rua dourada.
Ecoa um alado
Ruído no rádio,
Transmite em torrente
Nova de sempre.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Cometer, só um bocado.


Cometer um pecado.
Nem tanto. Meio pecado. Cometer só meio pecado. Para não chegar a pecar.
Será que não é correcto? certamente. mas também, caramba, ainda não é errado. ninguém quer discutir ninharias. avancemos, não é errado. é só brincar lá perto do limite. é aí que está o gozo. onde mais?

Começar por cometer meio pecado.
Conhecemo-nos bem. Sabemos até onde é meio pecado. Conhecemo-nos bem e conhecemos bem o limite. Só até meio. até um cagagésimo menos que meio, e arredondará sempre para baixo. Sim, isto é seguro. E interessante. Vamos lá! Que há de mais interessante e até ético que meio pecado? nada. Ora nenhum Homem é santo. É heróico cometer meio pecado. Oh, se é! é um coito interrompido bem sucedido. A robustez do carácter, a determinação imperturbável... é nobre! começamos por aí e por aí ficamos. em meio pecado. nada mais.
— sabemos que não será assim. conhecemo-nos bem.
Será será. será talvez assim. conhecemo-nos bem. nem podemos pensar de outra forma. cometeremos deliberadamente apenas meio pecado. será então talvez assim, está combinado.

Tudo o que acrescer, tudo o que acresce, tudo o que acresceu, foi sem dolo. Sem dolo não há pecado. Toda a gente sabe. Sem dolo. Foi só um virtuoso desequilíbrio. Uma nortada que soprou mais forte, sem se contar. este inverno que até andava tão calmo. Soprou tão forte… e já se sabe, do outro lado a colina escorrega muito.

Portanto: sem dolo.
Sem dolo. Que sem dolo não há pecado.
— Nem prazer.
Merda!
Sem dolo não há prazer. foi um espirro. uma obscenidade involuntária. aos tropeções. Nem deu para a saborear. Uma polução qualquer de um espírito indeciso.
desperdiçar todo este esforço assim...?

Há que manter a intenção então.
Porque a culpa condimenta. E o dolo é o mérito das coisas más. E eu não vendo as minhas medalhas. Muito menos janto sem sal!
A intenção fica.
Mas não a intenção de um pecado inteiro! credo! Apenas a intenção de meio pecado. e a de escorregar depois. é quanto baste. Nunca a intenção de todo um asqueroso pecado. Isso não!

Assumo a culpa só de meio pecado. Aliás, quase meio pecado. isso sim, tive culpa. Isso e de ser pouco cauteloso nas contas, e pronto, está visto, no meio da confusão, os imponderáveis, a distracção, o azar, tudo à mistura, uma pessoa escorrega e quando se dá conta sabe-se lá onde está. Foi uma imprecisão de cálculo este resultado.
Mas por minha vontade foi só meio, nem tanto. Juro.
Eu nunca cometeria deliberadamente um pecado.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Dirty words

Nunca calhou

O maior pavor da minha mãe era a droga, que eu me metesse naquilo, como a melhor amiga da juventude que, depois de já ter idade para ter juízo, começou a experimentar umas coisas pouco católicas. 
- A Cintinha, foi sempre muita dada a modernices e a provocar e transgredir, desde novinha, ainda andávamos no colégio, ela já era espevitada. Na faculdade, meteu-se para lá nas filosofias e nos existencialismos. Mas vá, até fez tudo direitinho e acabou o curso, normalmente, foi só quando já dava aulas que a comecei a ver com umas companhias incertas. Nos primeiros tempos ninguém adivinhava, até casou, ainda fui ao casamento dela e ao batizado da filha, parecia-me bem, nessa altura, mas eu fui vendo-a cada vez menos, ela aparecia cada vez menos, desaparecia cada vez mais, ofuscava-se cada vez mais, morria cada vez mais... Às tantas já não usava camisolas de manga curta, nem naqueles dias mais quentes de Verão, às vezes uma tineira insuportável e aqueles bracinhos todos tapadinhos. E, depois, esquelética, pálida... Comentava-se que tinha vergonha de mostrar os braços negros. Tinha a menina aí uns dez anitos quando começou a ir passar umas temporadas a casa dos avós. Tinha a menina aí uns doze anitos quando a mãe se foi. Foi uma tristeza, ter de explicar à criança... E achas que não tentaram salvá-la? O que aqueles pais sofreram! Por isso, eu que saiba! Vocês têm a mania que sabem muito, que são rebeldes. Eu que saiba que te metes numa dessas, não vou andar a minha vida toda a preocupar-me e com medo de te encontrar para aí numa vala obscura. É uma guerra perdida, e eu tenho a minha vida e não tenho saúde para isso. Bem que escusas de voltar a casa! - no fim, já vociferava a ladainha, decorada há largos anos. Provavelmente, construída no momento em que soube que ia ser mãe. Dizia-mo muito solenemente, muito séria, e se de meras ameaças se tratava, não tenho como saber, mas lá que soava convicta... 
Era o seu único medo, acima de tudo, o único disparate comum em adolescentes que, verdadeiramente, a assustava. Sendo eu meia parvinha e sem grande juízo, urgia iluminar-me a consciência, amiúde, não fosse eu esquecer-me. Nunca se incomodou a atemorizar-me com a maternidade precoce, ela sabia que esse problema estava fora de questão, que eu não corria o risco de alguém reparar em mim, nem por acidente. Só mesmo a droga pode bater a qualquer porta, para aspirar a romances era preciso ter outros encantos que a minha mãe estava certa de eu não possuir. Sempre era uma dor de cabeça a menos.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Quando a Rosa tiver um momentinho...

- Quando a Rosa tiver um momentinho... Não, não tenha pressa, acabe isso com calma, temos tempo. Pois, isso ainda lhe vai dar trabalho, há-de estar peganhento, calculo. Foi o Coronel, ontem à noite, exaltou-se, num repente, e verteu a bebida no soalho. Valha-nos o Senhor! A Rosa tenha paciência, já sabe como ele é. O remédio é esfregar, pois, que mais se há-de fazer! Mas depois, se a Rosa perceber alguma coisa destas maquinetas do Inferno, veja se me consegue ajudar aqui. Sabe, os meus antigos colegas, que continuam lá no Tribunal, volta e meia, ainda me pedem umas opiniões, quando se lhes depara um caso mais bicudo. Sabe, Rosa, a lei tem meandros e nuances manhosas, é preciso muita experiência para a interpretar. E eu já vi muita coisa nesta vida, nem imagina! E, portanto, os meus colegas, com toda a consideração e estima que têm por mim - e eu por eles, diga-se, e eu por eles... - ainda recorrem ao meu parecer. Daí estar aqui, desde manhã cedinho, a tentar redigir uma pequena explanação do meu ponto de vista. Mas não me está a ser fácil. Nada fácil. E eu tanto lhe pedi, não foi por falta de tentativa, àquela teimosa, que me deixasse tratar dos meus próprios documentos, de vez em quando, que também nunca tive muito tempo a perder, mas de vez em quando, custava-lhe ter me deixado escrever um relatório e imprimi-lo? Aquelas moças secretárias nunca nos deixavam fazer nada que fosse da sua competência, não queriam perder o estatuto. Ai de quem se chegasse a uma máquina de escrever, e quando vieram os computadores foi a mesma tormenta. Tinham medo de ficar obsoletas, as finórias. Tantas vezes lhe disse, Beatriz faça-me o favor, mostre-me lá como lida com essa geringonça, como é que faço um textinho à maneira e depois o mando cuspir ali na outra engenhoca, além?


por Paul Hogarth

A Rosa acha que ela se dignou a ensinar-me? Nunca, só no fim, nos últimos meses, quando já tinha posto o papéis para a reforma, é que a Dona Susana, uma rapariguita mais nova que lá andava, essa acho que já tinha um cursito qualquer tirado à noite, porque essa até bonecos já sabia fazer no computador. E essa, é que me esteve a mostrar, à pressa, estas coisinhas básicas de escrever, de fazer umas contitas e enviar e-mails. A Rosa sabe enviar mensagens pelo computador? Olhe que me entretenho muito com isto, volta e meia, recebo umas anedotas e uns vídeos engraçados, dos meus colegas da Relação, da malta da Tropa e de alguns rapazes que estudaram comigo no Liceu. Até lhe mostrava o video que recebi ontem à noite do Coronel - ele também sabe usar isto porque a esposa aprendeu na Universidade Sénior - mas é capaz de ser um pouco brejeiro para uma senhora, ainda mais casada, como a Rosa. 
Agora, eu também podia ir para a Universidade Sénior, aprender a jogar às cartas no digital, para as noites em que o Coronel não pode cá vir, mas aquilo está carregadinho de mulheres viúvas e carentes. E se eu não casei em novo, também não há-de ser agora, não está claro? E pior que essas desgraçadas, abandonadas pelo marido por forças da ceifeira-mor, são as solteironas. Irra! Que chatas! E acha que aquilo é paixão de forma alguma? É nada, elas vêm é fisgadas à minha pensão, que é considerável, por saberem que fui juíz. Não se pode ter um pé de meia, Rosinha, olhe, não seja tonta, aproveite a vida enquanto pode e tem saúde. Logo que acabe o seu serviço, ponha-se a andar que ainda apanha a matiné... Antes, veja só se me sabe guardar aqui este ficheiro, a minha pasta dos assuntos sérios tem o meu nome: Osvaldo

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

"Fábula em onze jornadas, tragicómica, sorte de rapsódia pagã em bemol."

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"Não, não cabia no seu entendimento que a essas babilónias afamadas, onde as mulheres tomam banho em água de rosas para amaciar a cútis, se pintam como deusas do Oriente, cheiram a nardo e a mirra, andam seminuas pelas praças, estudam ciências e artes, versejam, falam vários idiomas, são, numa palavra, torrões de açúcar e cidadelas de sabedoria, de natureza a encarecer a dificuldade da conquista e galardoar o mérito do conquistador, preferisse aquelas piolheiras, onde o mulherio que é virgem o menos que cheira é a raposinhos, e o experimentado, ao bodum. Para mais, brutinhas como patas e instintivas como poldras."
Aquilino Ribeiro in Andam Faunos Pelos Bosques 

domingo, 8 de janeiro de 2017

Dissonância Magnética

Labéis esses dogmas imemoriais, quem os desenhou não experimentou este mundo, não os adequou a cada dia que passa - há séculos que mudam muita coisa, outros nem tanto - as imposições àvant-garde, ainda por testar, potencialmente perigosas de tão imberbes, falta estudá-las face a cada um de nós. Conhece cada um dos meus vizinhos ou todos os meus antípodas, geográficos ou idealísticos? Não nos conhecem, nunca os sentiram. Nunca viram ninguém. As certezas absolutas tendem a toldar a vista. A obstar direções matam-se descobertas.
Andamos por cá há muito tempo, mas nascemos ontem, hoje de manhã. Escutemos o mínimo necessário dos anciãos e aventuremos na nossa linguagem, virgens abordagens de quem não foi ensinado a temer e ainda não aprendeu que vai morrer. 
Uma moral menos hereditária e mais destilada da sensibilidade, naturalmente, adquirida, roubada de uma conceção benigna do mundo.
Não procuremos, ansiosamente, leis universais, tange-me com a tua identidade, modulando-me a consciência, não é vidro que a compõe, é uma argila curiosa e absorvente. De cada vez que alguém me atravessa permaneço eu, meu sólido eu que não se transfigura com um sopro, mas vai filtrando a beleza que passa. Nada sei nada de, verdadeiramente, relevante mas, quem sabe, juntos, não sejamos um pouco mais luminosos, sem iluminismos. Comovo-me com a tua singularidade despojada. Não disfarces nada. 

Por Choi Xooang

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Espelho Mágico, Espelho Meu

Ele Fala Pelos Cotovelos Porque Sempre Morou Sozinho, Mas a Rosa Não Faça Caso

O escritório, quase tão imaculado quanto a cozinha e a saleta, não fosse por uns papéis espalhados e aparas de borracha branca na secretária, não requeria os seus serviços, de primeira categoria que, aliás, referências não lhe faltavam e, por isso mesmo, tantos vizinhos a tivessem recomendado ao Senhor Doutor, mas naquela casa tão pouco usada, Rosa ficava sem saber como ocupar-se.
Atrás de si, o Dr. Osvaldo relembrava que a Rosa está à vontade, eu ando sempre por aqui, se precisar de alguma coisa, é dizer. 
A mulher agarrou-se a sacudir o pó dos livros das estantes e de um ou outro bibelot que se lhe atravessasse no caminho. O dono da casa sentara-se à varanda a contemplar os transeuntes, de olho na rua e com o ouvido na Rosa, lamentou que Sandra tivesse querido ir embora. Já me tinha habituado a ela, sabe?  Uma pessoa afeiçoa-se. E parece-me que não pensou bem, quis casar-se, naturalmente, mas disse-lhe que se mudassem os dois para cá, é uma casa tão grande, cabiam perfeitamente, mais os pequenos que haverão de ter, se Deus quiser. Foi teimosa! 
Rosa anuía, distraidamente, sacudindo as almofadas do cadeirão. O homem tentava acender o cachimbo não obstante o vento que lhe frustrava a combustão dos fósforos. Com a primeira baforada, indagou se o marido de Rosa era pessoa que apreciasse uma partida de xadrez, ou de bridge, por vezes falta-nos o quarto elemento para as cartas. O Coronel do quarto traseiras e o neto são amantes de jogatina e, ocasionalmente, batem-me à porta, ao fim da tarde, quando o rapaz chega das aulas. De maneira que, se ele gostar, é só aparecer, escusa de se sentir na obrigação de trazer seja o que for, aqui nunca faltam umas cervejas e uns pistácios, se gostar de uísque também tenho uma série de garrafinhas que me foram oferecendo, ao longo dos anos, lá na Relação. Por colegas e amigos só, nada de ofertas nubladas que a mim nunca me untaram as mãos, e poucos foram os que se atreveram a tentar, por conta da minha renomada retidão. Poucos se poderão gabar como eu, bem pode perguntar por aí. Portanto, se o marido da Rosa achar piada, não faça cerimónias, nem vermute lhe faltará que o Coronel costuma trazê-lo lá de cima, também. Ele aprecia bem mais do que eu, que só bebo, cordialmente, quando tenho companhia. Agora, a mulher do Coronel já me confidenciou, a pobrezinha, que ele não tem restrições de espécie alguma, qualquer hora do dia lhe parece boa para encher o copo. Esses homens que andaram na guerra nunca estão, no âmago, em paz. Por muito bem-dispostos que se apresentem. Sempre há uma chispa que lhes acorda a memória. Graças ao Altíssimo que nunca calhou de eu chumbar em Coimbra e que nunca me tenham despachado para as Áfricas, com a espingarda numa mão e o rosário de minha mãe na outra. Se lá tivesse posto os pés, Rosa, e visto metade do que aqueles desgraçados viram, não morava aqui sozinho, agora que me aposentei, tinha voltado para a aldeia, ainda lá está a minha irmã mais nova, ela tomava conta de mim. Mas eu tenho uma cabeça sã e muitos amigos por cá que me querem bem, de vez em quando ainda nos juntamos para almoçar ou quê. Mas eu não me preocupo, se um dia a saúde me falhar, a Sãozinha cuida de mim, ela põe-me o creme nos joanetes como ninguém, sem fazer cócegas, e fá-lo de bom grado, é boa moça e eu sempre fui bom irmão, há anos que lhes trato do IRS, que eles com contas não são muito certos. Em casa da Rosa quem trata?

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Pendular

     Ainda com a sensação da almofada de flanela no rosto e a estridência do alarme do despertador a tinir no ouvido, Laidinha trota pelo passeio, desengonçada como só tu, acusaria o paizinho se a visse, naquela madrugada de inverno, a entrar na relojoaria. Era deselegante, não por ser anafada, não por ter os membros revestidas a gordura, triplo queixo e barriga flácida, era deselegante, por pura deselegância. À saída das entranhas da mãe, logo perdeu o centro de gravidade e o norte do juízo. Ainda jovem e magra já desengonçava rua fora e tropeçava chão abaixo. Desgraça explícita do paizinho, vergonha dissimulada da mãezinha.
     A chave na fechadura não cumpre o seu papel, cansa-lhe a mão e acorda a tendinite latente, que lá desce desde o ombro para estalar, agudamente, no pulso. Pousa as sacas no chão molhado e dedica-se, exclusivamente, a garantir que insere a chave certa e que exerce a rotação devida, como o Sr. Carlos lhe explicara. Não queria acordá-lo de propósito, àquelas horas, abre-te lá maldita! Abriu. Dentro da loja o ar está ainda mais frio que lá fora, Laidinha fricciona os braços e as mãos e acredita que aquece, é uma rapariga fácil de convencer.
     Luzes ligadas e tudo a postos, não vá alguém, por engano, aparecer e demorar-se, de barriga prostrada sobre o balcão, Laidinha começa a puxar o lustro aos relógios da vitrine. Não há vivalma na rua, se houvesse também não se veria através do nevoeiro cerrado, mas já sente o cheiro a estrugido da tasca, essa sim com fregueses em abundância, abundados em vinho tinto e pigarro, amiúde cuspido para o chão, amiúde cuspindo uns nos outros, porque é assim que se resolvem as escaramuças. 
     Laidinha não se metia com esses homens, há mais de 50 anos que aprendera a não se meter com os homens buliçosos do outro lado da rua. Laidinha, de mamas espalhadas sobre o balcão, puxava lustro aos relógios, ao ouro e à prata. Quando se cansa, entretém-se com o corta unhas, que desde pequena que os seus cabelos e unhas crescem rápido e tem de estar atenta. As unhas não podem chegar ao branco e o cabelo, agora branco, está sempre certinho ao nível do maxilar para não dar trabalho a lavar. Estes hábitos houveram sido incutidos pela mãe, mas Laidinha não se lembrava, talvez os achasse regras universais, ou talvez não achasse nada, rigorosamente nada, que não era rapariga de achar muita coisa. 
     Sabia que lhe cabia limpar a mercadoria, especialmente em dias de feira - costumava esquecer-se desses dias, mas agora tinha-os todos rodeados no calendário. Limpar a mercadoria e a loja era com ela, mas compor as máquinas não, não te atrevas a tocar na maquinaria, minha santa, desconchavas-me isto tudo e é o cabo dos trabalhos para reparar, os consertos são comigo! Sim paizinho, são só consigo. Não paizinho, já nada é consigo, há-de me perdoar, mas a dois metros da superfície onde andamos já nada é consigo, nem ir ao quiosque comprar o jornal, nem a sueca aos sábados de manhã, nem contar a caixa ao fim do dia, nem gritar comigo por dar mal os trocos, nem resmungar com a mãezinha por lhe ter dado uma filha burra, nem reclamar com o Sr. Carlos por encobrir as minhas asneiras. A propósito, é ele agora, paizinho, agora é o Sr. Carlos a reparar os relógios todos, deixa-os tão certinhos como dantes, o mesmo tic-tac metálico, a mesma rotação de ponteiros, na mesma direção do costume e até as horas são as mesmas, consigo ou sem si. As horas são as mesmas para o relógio de cuco na parede e para o relógio no meu pulso, que não trabalha sem a pilha que me esqueço de substituir, mas que de outra forma diria a mesmíssima coisa para a qual foi fabricado, é o que fazem as máquinas. Até para os bêbedos à espera do pequeno-almoço, a hora de hoje é igual à hora de ontem, sem tirar, nem pôr. Mas para mim, elas parecem crescer, achar não acho porque não sou grande coisa a pensar, mas sinto que as horas de hoje demoram mais a acabar do que dantes. Dantes a mãezinha estava aqui, na cadeira atrás do balcão, a falar para mim, a cantar em sobreposição à voz do rádio, a tecer-me camisolas para o inverno e eu nunca tinha frio, a dar-me biscoitos de limão e cevada para o lanche e a achar-me bonita. 
     Lá fora não passa ninguém, quando passar estará a caminho de algum outro lugar que Laidinha desconhece, com certeza para lá do caminho entre a sua casa e a loja. Podia ter ficado a dormir até que o sol a acordasse, mais suavemente que o despertador, mas Laidinha não sabia, porque a mamã fora-se antes de lho revelar. 

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

9 em Cada 10 Vezes, é Mesmo Só Ar




Intervalo que envolve, 
quilómetros a perder de vista,
ou ténue vidro embaciado, 
o que tem é tão espesso 
e denso, ele absorve
(ou vazio, incomunica),
toldando o lá 
avistado de cá.

Passado tumultuado, 
em contínua fuga de si
mantendo-se a par,
ligeiramente atrasado, 
ligeiramente adiantado, 
experimenta caminhar.


Indo em ar próprio, 
sobre próprio chão, 
segundo a quebra de paradigma, 
faz-se e existe.
Faltando o molde, 
não há despiste.
Livre, desenvolve. 

A cortina eterniza,
mas
diáfana quanto pode, 
sem tua ênfase, 
é uma brisa.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Versar as Mais Íntimas Aflições

Sempre que o bolso
do casaco
me devolve um gancho,
há um um brinco
que me cai,
pelo ralo abaixo.

Sumiu-me o batom
do cieiro,
fui comprar um igual,
o lábio inferior já gretado,
e aquele primeiro,
rolou detrás do candeeiro,
em excelente estado.



     Houvera um armário
     de infinitas gavetas,
     onde um objeto,
     em cada uma,
     metas.

     Na primeira,
     um índice
     das posições,
     prevenindo este vórtice
     de perdas
     e repetições.

     Oh, pudera eu
     guardar
     no meu braço,
     todo os totós do cabelo,
     tão menor o cansaço,
     de buscá-los
     noutro mundo paralelo.