Duas toalhas geminadas dão abrigo aos personagens principais da
história de hoje. Ser personagem principal significa que toda a história, bem
como as participações dos outros intervenientes, se desenrolam à sua volta.
Duas almas geminadas habitam então essas toalhas.
Um biquíni moreno veste um pouco da pele preta da rapariga na toalha da
direita. O vizinho contrasta.
O cabelo escuro, maioritariamente liso, por vezes reivindica o
direito a ter vontade própria. O sindicato é o vento. O cabelo do vizinho
também contrasta.
O vizinho, proprietário da toalha contígua, é um rapaz que Deus não
abençoou com muita melanina mas compensou com um cabelo aloirado que cresceu
aos caracóis. No vizinho nem os calções têm muito pigmento, são brancos e contrastam com o biquíni preto do lado. Onde há mais pigmento no rapaz é nas costas,
mas é sintético: uma tatuagem grande rotula-o como um bad boy que a cara não corrobora.
Abraçam-se. Ele afaga-lhe o cabelo com uma mão, a outra pousou no
limbo. Para uns ainda é nas costas, para outros já é nas nádegas; eu cá não me manifesto
sobre assuntos polémicos. Exerce aquela pressão exacta para transmitir a
mensagem sem ser explícito. Talvez não se possa afirmar que aquela mão no limbo
a esteja a puxar para si, mas muito menos que a deixa afastar-se livremente. É
um gesto comedido.
Beijam-se. A mão transmite agora uma ideia bem mais decidida. Os corpos
estão algo entrelaçados, mas o entrosamento é facilmente reversível por conta
da rapariga. As pernas dela vão assumindo posições de dúvida. Os pés rodam para
dentro e brincam por vezes com a areia. É vergonha?
Alguns metros ao lado, do lado do rapaz, uma outra rapariga vai assistindo. Curiosa vai julgando a indecisão da protagonista.
No hemisfério oposto, do lado das costas da rapariga, um juvenil vai
invejando o protagonista. Está do lado certo para invejá-lo.
Mais atrás, uma mulher vai prestando mais atenção a esta história do que à do livro que está a ler.
Um casal com dois filhos revê-se na cena com nostalgia.
O Mar é dos poucos totalmente indiferentes. Na praia todos são um pouco espiões.
Há na protagonista, deitada sobre o lado, um vale fértil entre as costelas e a anca. Aquele vale tem as condições ideais para o Homem deixar de ser recolector. Naquele vale, onde o sol incide amornando e doirando todo o terreno, a terra não é árida, não é seca nem pedregosa. Parece macia e húmida, perfeita para o cultivo. Ali cresceriam todo o tipo de sementes, assim fossem lançadas, e o Homem deixaria de ser nómada.
A incerteza da rapariga não permite nem que o Homem nem que a situação evoluam. O Homem, não se fixando no vale, mantém-se sujeito à fome e à eterna procura, permanece nómada, mas guarda a esperança de encontrar outra oportunidade no futuro. O momento de intimidade, acaba por extinguir-se, pouco depois. A mão regressa, cabisbaixa, mas guarda a esperança de encontrar outra oportunidade, talvez à noite.
Sentam-se. Conversam. É uma negociação. Ela cede, sem dificuldade — vão ao mar.
Levantam-se. Afastam-se. A rapariga deixa pegadas muito bonitas. As do rapaz não sei, não vi.
Os espectadores voltam para o que estavam a fazer.
O Mar continua indiferente.
Vocês voltam para o facebook.